Internacional

Professora da UFRGS conquista prêmio internacional de Cientista do Ano em 2020

Membro da Academia Mundial de Ciência (TWAS) e da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e secretária regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a professora de Bioquímica da UFRGS, Angela Wyse, é, ela mesma, um símbolo da luta em prol da ciência. O reconhecimento mais recente foi ser considerada uma das cientistas do ano pelo International Achievements Research Center (IARC), de Chicago, nos Estados Unidos.

Ser considerada uma referência na área das ciências médicas e da saúde já seria um prêmio. Mas ser a única brasileira agraciada na lista, ainda mais durante um ano de pandemia, para ela, é uma honra.

"Tem um anti-iluiminismo. Se olharmos na história, isso aconteceu e vai se repetindo. Na época da febre espanhola, aconteceu uma politização. É inacreditável, no século XXI, acreditar nisso. Nem penso que a pessoa acredite. Acho que ela repete para criar um conflito. Quando defendo a ciência, a educação, a saúde, não entro no conflito. Acho que temos que mostrar nossa visão, mostrar por que a ciência é importante, que sem ela não tem futuro, e as pessoas que reflitam sobre isso", afirma.

Investimento contínuo

Quem fala com a professora escuta, permeada em cada resposta, um otimismo. Apesar das dificuldades enfrentadas em 2020, ela acredita que sempre é possível fazer algo pela ciência.

O prêmio, aliás, foi dado pela produção constante de uma trajetória acadêmica que começou na Universidade Federal de Rio Grande (FURG) e segue contibuindo a instituições nacionais e internacionais. Como ficou nove meses longe do laboratório, Angela aproveitou o perídio de restrições para publicar artigos e fazer revisões bibliográficas.

"O que foi publicado este ano foi feito dois, três anos atrás. Por isso que o investimento tem que ser contínuo. Tem que reduzir o modelo experimental, fazer, examinar. Tem que passar por comitê de ética, conseguir reagentes, e isso demora a chegar", comenta.

De acordo com ela, há um desinteresse de alunos de pós-graduação pela vida acadêmica, já que os incentivos escassearam nos últimos anos. Como as bolsas de pesquisa sem reajustes, muitos estudantes trocam os laboratórios e salas de aula por emprego na iniciativa privada.

"É uma pena. As universidades públicas detêm 95% da pesquisa no país. Ciência e tecnologia dependem do conhecimento produzido, e são os alunos que mantêm a dinâmica nos laboratórios. Isso vai diminuir bastante. Já está havendo uma fuga de pessoas com interesse pela pesquisa desde o ano passado. Isso é um fator negativo", alerta.

Apesar de tudo, avanços

Porém, como gosta de falar pelo lado positivo, Angela ressalta os avanços conseguidos em 2020. A urgência por soluções acelerou pesquisas e gerou, principalmente, segundo a professora, um sentimento de compartilhamento de conhecimento.

"Primeiro, a plasticidade de as pessoas se reinventarem. A telemedicina, por exemplo, que na Eruopa tem há anos, agora viralizou aqui. Aulas remotas, uma coisa híbrida, isso é positivo. E haja vista a quantidade de população do mundo, é bom que tenhamos diferentes vacinas para incentivar diferentes tecnologias. Como precisávamos de uma resposta pra entender o vírus, a ciência cresce com essas colaborações. E o avanço da tecnologia, inteligência artificial, bioquímica, genética. Em período curtíssimo, todo mundo se uniu e está tentando resolver", sublinha.

"Gosto de falar de sonhos. Essa politização nos puxa pra baixo. Temos obrigação de falar das coisas positivas e avançar. Temos que ser críticos, temos que resistir, mas mostrar as coisas positivas"

Para isso, ele pede o fim da politização em assuntos técnicos. Angela recorda do exemplo do médico polonês Albert Sabin, que desenvolveu a vacina oral para a poliomielite e liberou a patente para ajudar a difundir a prevenção à doença que atinge principalmente crianças no mundo todo.

"A ciência é apartidária. Todos temos que investir na ciência. Saio do meu conforto e vou a escolas públicas pra mostrar que fazer ciência é bom, estudar é bom. Agora todo mundo resolveu entender de tudo", lamenta.

Fonte: G1