Nacional

Arautos do Evangelho

Os Arautos do Evangelho (em latim Evangelii Præcones, cuja sigla é E.P.)[1] são uma Associação Internacional de Fiéis de Direito Pontifício, a primeira a ser erigida pela Santa Sé no terceiro milênio, por ocasião da festa litúrgica da Cátedra de São Pedro em 22 de fevereiro em 2001.[1]

A fundação dos Arautos, pelo Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias[1], se deu em 21 de setembro de 1999.[2] Mas sua aprovação e reconhecimento ante a Igreja Católica se deu em 22 de fevereiro de 2001 através do Papa João Paulo II[3] e, em 2009, foi elevada à condição de sociedade de vida apostólica pelo Papa Bento XVI.[4]

Paulistano, filho de mãe italiana e pai espanhol, João Clá Dias foi secretário de Plinio Corrêa de Oliveira na extinta Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, da qual os Arautos é uma dissidente sem qualquer vínculo[5]. Além de fundador, João Clá Dias foi Superior Geral dos Arautos desde a sua fundação até junho de 2017, quando, aos 77 anos, renunciou ao posto.[4]

Dois anos antes da fundação, em agosto de 1997, João Scognamiglio Clá Dias criou a Associação Cultural Nossa Senhora de Fátima (ACNSF), vista como embrionária dos Arautos, cuja proposta é a difusão da mensagem mariana de Fátima, tida como contra-revolucionária.[2]

Presente em 78 países, a Ordem dos Arautos do Evangelho tem sua casa principal, a Basílica de Nossa Senhora do Rosário ou "Monte Thabor"[6], sediada nas imediações da Serra da Cantareira, entre as cidades de Caieiras e Mairiporãregião metropolitana de São Paulo, e seu conjunto de edifícios, erigido com auxílio de doações, ocupa uma área de 107 km² de floresta em terreno doado pelo proprietário de uma hípica desativada. Na casa principal funciona, também, um seminário onde os alunos aprendem italiano, inglês, espanhol, hebraico, grego, com ensino médio e cursos superiores de filosofia e teologia, com base no pensamento de Tomás de Aquino, além de ciências da religião e canto gregoriano.[7][3][8]

Os Arautos possuem diversas similaridades com as ordens de cavalaria medievais, como os Templários, os Teutônicos, entre outras, que vão desde as regras internas como votos de castidade, pobreza, devoção altruística e vida monástica rígida e disciplinada, até o direito de responder diretamente ao Papa, concedido por decreto do próprio Vaticano,[9] além de poder ordenar seus próprios padres e construir suas próprias igrejas.[3]

 

Organização

Arautos do Evangelho na Igreja de San Benedetto in PiscinulaRoma.

A autoridade suprema dos Arautos é a Assembleia Geral, a qual elege o Conselho Geral que assistirá o Presidente da associação. Conta também com conselhos regionais que administram os sodalícios nos diversos países em que atua. Além da organização interna, incluem-se também os colaboradores e membros honorários, os quais são pessoas e famílias que participam ativamente, seja contribuindo com a associação ou utilizando de seus ensinamentos e celebrações.[10]

Ordens

A sua estrutura comporta três ordens:

  • Ordem I: homens consagrados que se dedicam integralmente à Santa Igreja Católica Apostólica Romana e à própria entidade.
  • Ordem II: mulheres consagradas que se dedicam integralmente à Santa Igreja Católica Apostólica Romana e à própria entidade.
  • Ordem III: homens ou mulheres, que se dedicam a ideais da entidade no emprego, na família e em seus círculos sociais.

Consagração

Os Arautos são consagrados a Jesus Cristo por meio de Nossa Senhora, segundo o método descrito por São Luís Maria Grignion de Montfort em seu livro Tratado da Verdadeira Devoção à Virgem Maria.

Virgo Flos Carmeli

Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, dos Arautos do Evangelho, com alguns membros cooperantes visíveis.

A Sociedade Clerical Virgo Flos Carmeli é constituída por membros dos Arautos do Evangelho com vocação ao sacerdócio, após dezenas de anos de vida comunitária, estudos e muita dedicação, com o fim de melhor empreender a atividade evangelizadora, como se pode ler no art. 3º de seus estatutos:

A Sociedade nasce como expressão do carisma da Associação Arautos do Evangelho, com a especificidade da vocação sacerdotal, manifestando a vontade de atuar em comunhão de métodos e metas com a mencionada associação, e empenhando-se particularmente em que os fiéis que se sentem atraídos por este carisma tenham uma assistência ministerial, sobretudo, os que vivem em comunidade (PC 10).

Em 2005, foram ordenados os primeiros 15 sacerdotes da sociedade, provenientes de diferentes países, em celebração realizada pelo cardeal arcebispo de São Paulo, dom Cláudio Hummes.[3] A sociedade Virgo Flos Carmeli, bem como sua ramificação feminina Regina Virginum, foram elevadas a Sociedade de Vida Apostólica por Decreto Vaticano no dia 26 de abril de 2009.[11][12]

No ano de 2011, a Virgo Flos Carmeli já contava com 83 padres, 34 diáconos e 483 membros permanentes.[13]

Símbolos

Em seu medalhão estão contidos os três principais símbolos dos Arautos: as chaves de São Pedro (simbolizando o Papa), Maria Santíssima e a Santíssima Eucaristia. À cintura, uma corrente de ferro representa a fortíssima ligação de cada Arauto com Maria, ao ponto de se chamarem "Escravos de Jesus através de Maria". Pendente desta corrente está o Rosário, frequentemente recomendado por Maria em suas aparições.

Os membros dos arautos, tanto homens quanto mulheres, usam uniforme de estilo militar medieval, com túnica bege, ornada com o desenho da cruz de Santiago, botas de cano longo e um rosário na cintura.[7]

Igrejas

Os Arautos do Evangelho possuem duas igrejas principais, elevadas à categoria de Basílicas:

Basílica de Nossa Senhora do Rosário, inaugurada dia 24 de fevereiro de 2008, na Serra da Cantareira, município de CaieirasDiocese de Bragança Paulista e a Basílica Nossa Senhora do Rosário de Fátima, em Embu das artes, diocese de Campo Limpo, elevada no dia 31 de maio de 2014, pelo Vaticano, à categoria de Basílica Menor.

Em 31 de maio de 2003 a igreja de San Benedetto in Piscinula, localizada em Roma, foi entregue pela Diocese de Roma aos cuidados dos Arautos.[14]

Em 31 de março de 2008 a Igreja de Nossa Senhora da Encarnação localizada em LimaPeru, foi entregue aos cuidados dos Arautos.[15]

Em 14 de setembro de 2009 os Arautos deram início à edificação da Igreja de Nossa Senhora de Fátima na cidade de Tocancipá, a 25 km de BogotáColômbia.[16][17]

Em 15 de dezembro de 2018 é inaugurada solenemente a Igreja de Nossa Senhora do Bom Conselho na cidade de Ypacaraí, a 44 km de AssunçãoParaguai.[18]

Coro e orquestra

Visando a divulgação, bem como a evangelização, da música sacra, os Arautos do Evangelho mantêm entre suas atividades o Coro e Orquestra Internacional dos Arautos do Evangelho. Tal projeto se apresenta durante as missas realizadas pelos Arautos ou em festividades católicas como o Natal e Páscoa, dentre outros eventos de caráter religioso e culturais.[19][20][21]

O Coro e Orquestra dos Arautos já gravou álbuns de músicas tradicionais natalinas, canto gregoriano, e obras de renomados compositores de música erudita, como a Ave Maria de Charles Gounod e a de Franz Schubert, até obras polifônicas como a Sicut Cervus de Giovanni Pierluigi da Palestrina.[22] Além de já ter se apresentado ao papa São João Paulo II.[23]

Liber Cantualis

Ainda no âmbito da divulgação da música sacra, os Arautos do Evangelho publicaram o livro Liber Cantualis - Os mais belos cânticos gregorianos pela editora Lumen Sapientiae.[24].

O livro é uma seleção de peças musicais usadas na liturgia católica, entre outras, contendo as letras em português e latim e a partitura para canto gregoriano.[25]

Controvérsias

Investigação pelo Vaticano

Em 2017, o Vaticano instituiu uma Visita Apostólica dos Arautos sob a direção da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica. Em 12 de junho de 2017, Monsenhor João Clá deixou o cargo de Superior Geral, mas continuou sendo "pai" dos Arautos.[26][27] A visita encontrou "deficiências no estilo de governo, na vida dos membros do Conselho, no cuidado pastoral das vocações, na formação de novas vocações, na administração, na administração de obras e na captação de recursos".[28] No dia 28 de setembro de 2019, o Papa Francisco nomeou o cardeal Raymundo Damasceno Assis como Comissário Pontifício para tratar com os Arautos, no entanto, em 19 de outubro, os Arautos declararam que não reconheciam a legalidade da instituição do Comissário.[29][30]

Um elemento nesta investigação foi um vídeo apresentado por Andrea Tornielli,[31] em um artigo publicado no jornal italiano La Stampa,[26][32] que mostrava vários membros dos Arautos do Evangelho ouvindo uma descrição de um "exorcismo". Naquela época, os Arautos emitiram uma nota de esclarecimento afirmando que este era um vídeo antigo e que o vazamento havia ocorrido de forma inadequada, como ocorreu nos estudos teológicos. Além disso, esclareceu que todas as medidas apropriadas foram tomadas de acordo com o Direito Canônico e à luz da teologia católica.[33]

Acusações de abusos físicos e psicológicos

Em outubro de 2019, uma investigação do Ministério Público (MP), movida por ex-membros descontentes da cidade de Caieiras, na região metropolitana de São Paulo, foi aberta após a divulgação de vídeos de supostos exorcismos e de João Clá, fundador da Associação, agredindo crianças.[34][35] O MP constatou que os adolescentes não podem ter telefone celular pessoal e que todos usam um único aparelho, mas apenas para enviar mensagens por WhatsApp e que ficam visíveis a todos, o que, segundo os peritos, é uma violação do direito à privacidade dos jovens. Para ligar para as famílias, eles têm que usar telefones fixos. Os peritos também não encontraram livros sobre história do Brasil, literatura nacional ou livros didáticos, mas apenas enciclopédias antigas e livros escritos por João Clá. Para o MP, o ECA não é respeitado pelos Arautos.[36] Ex-internas também denunciam alegados casos de afastamento da famíliaabusos sexuaisestuprosracismo e uso de adolescentes para arrecadação de dinheiro nas ruas,[36][35] porém a Polícia Civil do Estado de São Paulo concluiu que não há indícios de materialidade na denúncia de estupro.[37]

No dia 29 de outubro, a Ordem dos Advogados do Brasil seccional São Paulo (OAB-SP) criou um grupo de trabalho para acompanhar as denúncias. Paralelamente, o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo, anunciou que entregará um dossiê contendo todas as acusações na Defensoria Pública.[38]

Reportagens publicadas pelo portal Metrópoles,[39] pela revista Veja,[40] pela rádio CBN,[41] pela revista IstoÉ,[42] pelo programa Fantástico[36] e pelo telejornal SBT Brasil[43] já haviam mostrado os mesmos relatos de abusos físicos e psicológicos descritos na investigação do MP. No dia 27 de outubro, o Fantástico marcou uma entrevista em uma igreja dentro do castelo do grupo, em Caieiras. No entanto, o representante dos Arautos, padre Alex Brito, não quis ouvir os questionamentos do repórter e exigiu que ocorresse uma gravação com internas que não foram citadas na reportagem e não são objeto de nenhuma denúncia. Na saída, a equipe foi hostilizada e xingada por seguidores e um homem chegou a dar um soco no carro da reportagem.[35]

Ao Fantástico, três representantes dos Arautos do Evangelho repudiaram todas as acusações e disseram que o sistema de ensino que eles utilizam nos colégios segue o que é determinado pelo Ministério da Educação. Eles também se dizem vítimas de perseguição religiosa.[36]

 

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Arautos_do_Evangelho