Internacional

O que faz o Brasil ser um dos piores no ranking de competitividade digital

País segue na 57ª posição entre 63 países com gargalos fortes em áreas como educação. Uma boa surpresa é o nível de digitalização dos serviços do governo

Falta de mão de obra qualificada, de investimentos e agilidade nos negócios estão entre os fatores que mantém o Brasil nos últimos lugares do ranking de competitividade digital da escola de negócios suíça IMD.

A nova edição da lista, divulgada nesta quinta-feira (26), mostra o país estagnado desde o ano passado na 57ª posição entre 63 países.

É a pior posição desde que o ranking começou há cinco anos. O Brasil foi da 56ª posição em 2015 para a 54ª em 2016 mas, já no ano seguinte, caiu para a 55ª. Em 2018, foi para a 57ª, onde segue até hoje. Os primeiros lugares são Estados Unidos, Singapura, Suécia e Dinamarca.

Para avaliar competitividade digital econômica dos países, foram analisados três fatores: “Conhecimento”, que significa a capacidade do país de entender e aprender novas tecnologias; “Tecnologia”, que é a competência para desenvolver inovações digitais; e “Preparação para o Futuro”.

Do ano passado para este, o Brasil melhorou em “Conhecimento” e “Preparação para o Futuro”, mas ficou estagnado em “Tecnologia”.

Conhecimento

O Brasil subiu três posições, do 62º para o 59º lugar, neste primeiro índice, que engloba a oferta do país de profissionais qualificados e a qualidade na sua formação. O país já chegou a ficar na 54ª posição neste item em 2016.

O subitem que mais se destacou foi “Concentração científica”, que subiu 10 posições do ano passado para este. Esse é o primeiro estágio da cadeia de inovação e revela a capacidade do país de gerar conhecimentos que possam gerar novas tecnologias e, eventualmente, inovação.

Com um gasto de 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento, o Brasil está entre os 30 países que mais investem no setor.

“Parece muito, mas se compararmos com países que estão querendo ser mais inovadores, como Estados Unidos e China, tem que melhorar muito esse porcentual”, diz Carlos Arruda, professor da Fundação Dom Cabral, parceira do IMD no desenvolvimento dessa pesquisa.

Outro destaque da “Concentração Científica” é a produção de publicações provenientes da pesquisa e do desenvolvimento, na 8ª posição geral. Isso significa que o Brasil é um bom gerador de conhecimento.

“Esse conhecimento poderia ser transformado em tecnologia e inovação, mas há um gargalo. O país consegue fazer publicações interessantes, mas não consegue transformar isso em patentes”, diz Arruda. O país está na 46ª posição geral no item “geração de patentes”.

Outro fator de destaque é o nível relativamente alto de investimento público em educação, já que o Brasil está entre os oito que mais investem no setor e entre os 30 que mais investem por aluno.

O Brasil investe cerca de 6% de seu PIB em educação, só que a maior parte desse valor vai para a educação superior e pós-graduação – ao contrário do que ocorre em países desenvolvidos, onde a maior porcentagem dos recursos costumam ir para a educação básica.

“O país investe bem, investe muito, mas bastante dirigido para as universidades, que vão gerar cientistas. É bom, mas fica deficiente na educação básica, como mostra a posição horrível do país no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), em 56º lugar”, diz Arruda.

A resposta passa por melhorar a qualificação de mão de obra interna e da legislação digital, de acordo com o professor José Caballero, economista sênior do ranking global de Competitividade Digital do IMD.

“As empresas estão com dificuldades de encontrar trabalhadores qualificados (…) e a digitalização encontra problemas para avançar com a legislação local e com um setor privado pouco encorajado”, diz.

Ele destaca que o Brasil é penúltimo lugar do ranking no item “Talentos”, que corresponde à mão de obra qualificada.

Preparação para o futuro

O Brasil pulou quatro posições, de 47º para o 43º lugar, no quesito “Preparação para o Futuro”. O destaque positivo foi para o subitem “E-Participação”, que mede o nível de digitalização no relacionamento do governo com a população em geral, onde houve salto da 32ª posição para a 12ª.

Aí entra desde o programa digital do Imposto de Renda até serviços digitais do Detran ou de tribunais reginais.

“O Brasil se destacou nisso e deve avançar ainda mais”, diz Arruda. “Vemos planos de simplificação administrativos sendo lançados, burocracias sendo reduzidas em muitas frentes”, diz.

O que mais preocupa Arruda a educação. “É algo que não dá para corrigir rapidamente. Nós temos um gap de qualidade que vem de longo prazo e é difícil de ser reparado”.

Arruda destaca que entre os piores países do ranking, há quatro latino-americanos e nenhum asiático. Já entre os melhores, há quatro asiáticos e nenhum latino.

“Estamos numa região que está ficando para trás na competitividade digital, enquanto outra parte do mundo se posicionou orientada para essa mudança tecnológica”, diz ele.

Fonte: Exame