Internacional

Percentual de idosos que trabalham nos EUA é o dobro de 1985

Falhas nas redes de proteção social, planos de previdência inadequados e altos gastos com saúde complicam a vida de idosos americanos

Da mesma forma que as famílias com uma só fonte de renda foram desaparecendo no século passado, muitos idosos dos EUA estão desistindo da aposentadoria. O motivo é o mesmo: falta dinheiro. Falhas nas redes de proteção social, planos de previdência inadequados e gastos astronômicos com saúde fazem com que a perspectiva de parar de trabalhar seja mais temida do que desejada.

Pela primeira vez em 57 anos, a taxa de participação na força de trabalho por pessoas em idade de aposentadoria ultrapassou a marca de 20 por cento, segundo um novo estudo da gestora de recursos United Income.

A parcela da população com mais de 65 anos que trabalha ou busca ocupação remunerada dobrou desde o início de 1985, quando atingiu o piso de 10 por cento. O maior salto foi observado entre os que têm diploma universitário: 53 por cento estão no mercado de trabalho, comparado a 25 por cento em 1985.

Com isso, a renda anual média de trabalhadores dessa faixa etária subiu para US$ 78.000, 63 por cento maior do que os US$ 48.000 registrados em 1985 (com ajuste para a inflação). Já para os trabalhadores com menos de 65 anos, o aumento na renda anual média no período foi de apenas 38 por cento, para US$ 55.000. Os cálculos da United Income se baseiam em dados recém-publicados pelo Censo e pelo órgão responsável por estatísticas trabalhistas dos EUA (BLS).

Entre os mais idosos, observa-se um descompasso entre quem mais precisa de dinheiro e quem tem condições de trabalhar e está ocupado, enfatizou Elizabeth Kelly, que já atuou como assistente especial do Conselho Nacional de Economia da Casa Branca durante o governo Barack Obama e hoje é responsável por operações na United Income.

“São os indivíduos com mais escolaridade, mais dinheiro e mais saúde que continuam trabalhando, mas provavelmente são os que têm menos escolaridade, da classe operária, que mais precisam trabalhar”, disse Kelly.

Pelas estimativas do BLS, a geração Baby Boomer (nascida entre 1946 e 1964) será responsável pelo maior crescimento na participação na força de trabalho pelo menos até 2024. “Em 2024, os baby boomers terão idade entre 60 e 78 anos”, destacou um relatório do órgão. “A expectativa é que alguns continuem trabalhando mesmo depois de se qualificarem para receber benefícios da Seguridade Social.”

A matemática da aposentadoria é cruel, mesmo para quem parece financeiramente tranquilo. Teresa Ghilarducci, professora de economia da New School for Social Research, estima que o valor pago pela Seguridade Social repõe de 40 por cento a 50 por cento da renda da pessoa antes da aposentadoria. A ideia geral é que, para se manter em padrão de vida semelhante, uma pessoa precisa de 80 por cento do valor recebido antes da aposentadoria. Calculadoras disponíveis online estimam quanto é preciso poupar e obter de rendimento para atingir esse montante.

Um trabalhador típico da camada da pirâmide de distribuição de renda formada pelos 50 por cento que ganham menos — ou seja, renda anual inferior a US$ 40.000 — não tem economias para aposentadoria. Quem ganha entre US$ 40.000 e US$ 115.000 tem poupança mediana de US$ 60.000, segundo pesquisa da professora Ghilarducci.

No topo da pirâmide, os 10 por cento com maior renda, que ganham mais de US$ 115.000 por ano, têm poupança mediana de US$ 200.000. As economias deles também são notavelmente insuficientes, embora os cálculos não incluam propriedades imobiliárias e outros ativos tangíveis — nem heranças a caminho.

Na opinião de Ghilarducci, quanto um profissional com diploma universitário precisa economizar para se aposentar com conforto nos EUA? “Mais de US$ 1 milhão ou US$ 2 milhões.” Dá para entender porque as pessoas não param de trabalhar tão cedo.

Fonte: Exame