Internacional

Estados Unidos e Europa oferecem saídas opostas para a Venezuela

A Venezuela, hoje, é um tabuleiro de xadrez cujas peças são as potências que tentam exercer alguma influência sobre seus rumos

A crise na Venezuela ganhou contornos dramáticos em 2019 com a disputa de poder entre o Nicolás Maduro e o autodeclarado presidente interino e presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó. Até então, o país que vivia à beira do colapso econômico e humanitário viu a sua situação se agravar com o componente político adicionado e o envolvimento cada vez maior da comunidade internacional.

A Venezuela, hoje, é um tabuleiro de xadrez cujas peças são as potências que tentam exercer alguma influência sobre os rumos do país e que estão mobilizadas no Grupo de Lima ou no Grupo de Contato Internacional (ICG). Formados por países distintos, esses grupos buscam solucionar a questão a partir da realização de novas eleições presidenciais. Contudo, as divergências em suas abordagens revelam as divisões atuais nas relações diplomáticas globais.

“O Grupo de Lima repercute decisões da Organização dos Estados Americanos (OEA), entidade na qual os Estados Unidos têm uma forte presença”, diz o historiador e cientista político Leonardo Trevisan, professor de Relações Internacionais da ESPM, em São Paulo. “Esse grupo, de certa maneira reverbera posições norte-americanas, especialmente as de John Bolton, assessor de segurança nacional do governo Trump.”

De acordo com Trevisan, a proposta desse grupo é a de forçar a saída de Maduro a partir do “estrangulamento” da economia da Venezuela pela aplicação de sanções cada vez mais fortes. “A estratégia é fazer com que Maduro ceda o poder para Guaidó, para que ele inaugure um governo de transição e conduza as eleições presidenciais”, diz Trevisan. “Seria uma derrota para Maduro e, na prática, a sua exclusão do jogo político.”

Neste grupo, que é apoiado pelos Estados Unidos, estão Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Santa Lúcia. O México também faz parte da iniciativa, mas se distanciou de manifestações recentes por discordar de pontos defendidos pelo grupo, como o não reconhecimento do novo mandato de Maduro.

Na outra ponta da equação, está o Grupo de Contato Internacional (ICG), que quer colocar Maduro e Guaidó na mesma mesa para negociar. Ele é formado por países da União Europeia (França, Alemanha, Itália, Holanda, Portugal, Espanha, Suécia e Reino Unido), além de Costa Rica, Equador, Uruguai, Bolívia e México.

Apesar de os membros do grupo terem reconhecido a legitimidade do presidente interino e aprovado sanções contra Caracas, a posição deles é de negociação, algo que membros do Grupo de Lima, como o Brasil, rechaçam. “A diplomacia europeia teme uma intervenção maior que possa resultar em guerra civil e fazer com que a Venezuela se aproxime mais da Rússia e da China”, diz Trevisan.

Na sexta-feira (8), Maduro disse que estaria aberto a receber uma delegação do Grupo de Contato Internacional, mas rejeitou a declaração dada pelo grupo um dia antes, após uma reunião em Montevidéu, no Uruguai. Para Maduro, a resolução do grupo é “partidária”.

A questão venezuelana traz um debate ainda maior e que é em torno da sobrevivência do multilateralismo num momento no qual o mundo observa uma crise nesse modo de cooperação. “Quem quer solução multilateral? Um grupo segue a lógica de Trump, mas a Europa resiste, já que a discussão em torno do futuro dessa crise ditará a forma como o mundo lidará em situações similares em outros países”, diz.

Fonte: Exame