Internacional

Entenda as consequências políticas da saída do Reino Unido da UE

Há muito em jogo no referendo que decidirá o futuro do Reino Unido e da União Europeia (UE), e uma saída britânica do bloco pode ter consequências políticas devastadoras e imprevisíveis. Os impactos atingirão, provavelmente, não só o território e os cidadãos britânicos, mas toda a UE e seu prestígio. Após 43 anos de "casamento" com a União Europeia, toda a economia e o sistema legal e administrativo do Reino Unido tornaram-se profundamente integrados ao resto do continente. O Brexit (saída britânica) também poderia motivar outras nações a convocar referendos para deixar o bloco, enfraquecendo todo o sistema e hegemonia construídos ao longo de meio século.

Confira a seguir algumas dessas consequências políticas da saída do Reino Unido da União Europeia.

Crise política e institucional

Se o Reino Unido votar pela saída da União Europeia (UE), é provável que o país sofra com uma crise política e institucional sem precedentes em sua história recente. Responsável pela convocação do referendo e líder da campanha pela permanência na UE, o primeiro-ministro britânico David Cameron deverá renunciar ao cargo, levando a uma disputa interna no Partido Conservador para a nomeação de um sucessor. É possível que haja, inclusive, campanhas para a convocação de novas eleições parlamentares para formar um novo governo.

O desencontro entre os resultados do referendo na Inglaterra e nos outros países do Reino Unido também pode causar conflitos internos. As pesquisas apontam que na Escócia e na Irlanda do Norte a campanha pela permanência na UE deve prosperar. Se essas previsões se confirmarem, esses países podem pedir por uma nova votação em caso de vitória da saída e passar a questionar a constitucionalidade e legalidade do processo do referendo. A primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, apoiada por uma maioria dos escoceses favorável à permanência do Reino Unido na UE, já inclusive ameaçou voltar a convocar um referendo sobre a independência da Escócia se o resto do Reino Unido votar pela saída.

Efeito dominó

A saída do Reino Unido da União Europeia pode dar início a um efeito dominó entre os países do bloco e enfraquecer o atual modelo europeu. Os pedidos de referendo para sair do bloco podem se multiplicar em caso de Brexit e ecoar nos países nórdicos, muito afetados pela onda nacionalista que também atinge a nação britânica. Os países escandinavos, importantes contribuintes para o orçamento da UE, temem que as sucessivas crises europeias acabem afetando sua prosperidade.

O ministro das Finanças italiano, Pier Carlo Padoan, afirmou em entrevista ao jornal britânico The Guardian que a saída do Reino Unido do bloco poderia influenciar também campanhas por um referendo na França, nas eleições presidenciais de 2017. "Já estamos vendo um efeito dominó, com os partidos anti-Europa ganhando um monte de apoio, começando na França”, afirmou Padoan.

Imigração

Até que fique claro qual será o acordo que substituirá os atuais termos de associação da UE no caso da saída do Reino Unido do bloco, é difícil dizer qual será a política de imigração adotada. Muitos especialistas acreditam que, com a adesão do Reino Unido aos acordos de livre comércio, o compromisso de livre circulação entre os países europeus também será legitimado, assim como acontece atualmente com a Noruega ou a Suíça.

No entanto, até que esse novo acordo seja estabelecido, é possível que a imigração para o país seja regulado inteiramente pela lei nacional britânica. Nesse caso, imigrar para o Reino Unido se tornaria ainda mais difícil do que já é: os cidadãos da UE enfrentariam longas filas e checagens de documentos. Uma diminuição acentuada da imigração de trabalhadores poderia levar a falta de mão-de-obra na área da construção civil e em outros serviços.

Os britânicos também teriam de solicitar vistos para viajar pelo resto do continente e cidadãos ingleses vivendo em países como Espanha podem ter de cumprir regras de integração bastante rígidas, como a obrigação de falar a língua oficial da nação, antes de ganharem o visto de residência.

Perda de influência do Reino Unido

O Reino Unido perdeu boa parte de sua influência dentro da União Europeia na última década e mais recentemente por não atuar de forma ativa na busca por soluções para a crise de refugiados e a crise do euro. Caso a nação decida mesmo sair do bloco, é provável que seu prestígio na Europa e no cenário mundial diminua ainda mais.

Grande parte da influência global do país está ligada ao seu poder de veto no Conselho e no Parlamento Europeu, assim como da sua influência informal na Comissão Europeia e na formação de alianças com outras nações. Fora da UE, o Reino Unido perderá créditos na hora de assinar acordos bilaterais ou fazer grandes transações econômicas e verá seu peso diplomático ser reduzido. O país provavelmente continuará a ser um parceiro militar significativo para os Estados Unidos, mas pode encontrar dificuldades para concretizar objetivos internacionais ou não ser a primeira escolha dos EUA para parcerias não militares.

Consequências para a UE

É consenso que a saída do Reino Unido da União Europeia poderia diminuir o poder do bloco no cenário mundial. Ao lado da Alemanha e da França, o Reino Unido é uma das principais potências europeias e sua ausência na UE significaria, além da perda de influência na política externa, uma carência em termos militares, já que os britânicos são responsáveis pelo quinto maior gasto militar do mundo e os primeiros no bloco. A nação também agrega a UE toda sua vasta rede diplomática, historicamente beneficiada pelo enorme poderio do Império Britânico, que tinha colônias e protetorados em todos os continentes do mundo. A inteligência britânica, capitaneada pelo serviço secreto MI6 e pelo Escritório Central de Comunicação do Governo (GCHQ, na sigla em inglês), também é um trunfo que a União Europeia pode perder.

Balanço de poder na UE

Se o Reino Unido deixar a União Europeia, o balanço de poder no bloco terá de se ajustar. A Alemanha, por exemplo, sofrerá pressão para assumir um papel mais ativo na Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia, ou CFSP na sigla em inglês, um dos pilares da UE e que procura preservar a paz e segurança nos países membros. Novas alianças dentro do bloco também podem surgir e Estados menores podem perder ou ganhar mais força e influência política.

Fonte: Veja Abril